sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Patê


Você vive uma vida inteira, conhece todo tipo de gente e acredita que sabe o que é o amor. Acredita que já amou e foi amado, que já entregou tudo de si, que já fez todos os sacrifícios, que seria capaz de mover mundos pela pessoa amada, que estaria disposto até – quem sabe – a dar a vida por esse amor.
Mas toda essa crença cai por terra quando você tem um filho.

Só quando você tem um filho, quando cumpre com sua função biológica é que é possível saber o que realmente significa o amor.

Só quando você sente um medo e um arrepio extremos dentro de si, simplesmente por escutar à notícia de um estupro, de uma guerra iminente do outro lado do mundo ou de algum novo vírus na África.
Só quando você abdica da sua rotina sem o menor pesar, quando abandona aqueles velhos hábitos aos quais vinha se apegando a vida toda e o faz sem remorso, sem dúvidas e com um sorriso no rosto. Só então é que você realmente sabe o que é amor.

Quando tudo de si e quando tudo em si torna-se algo em função daquela outra vida. Quando cada plano, cada decisão sua, mesmo as mais egoístas, passam a considerar o bem-estar dela.
Quando você vigia seu sono e fica contando o tempo da respiração vendo o peito arfando lentamente. E quando você sente aquele desespero bobo porque de repente a respiração demorou um pouquinho mais a vir.
Quando você fica encantado com cada nova descoberta dela como se fosse uma nova descoberta sua. Porque mesmo que sinta já ter visto ou descoberto tudo é encantador ver tudo soar tão novo e cheio de possibilidades pra quem você ama.

Você realmente sabe o que é amor, quando a primeira palavra minimamente compreensível é pronunciada e você se sente mais pleno, mais realizado e completo do que quando pulou de pára-quedas ou ganhou aquela promoção no trabalho.
Quando os primeiros passos são dados. Quando a bicicleta não cai sem as rodinhas.
Quando qualquer tédio, cansaço ou mau-humor causados pela dureza do dia dissipam-se imediatamente só de ver aquele pequeno ser que você ama sentado no chão, num canto do quarto com os brinquedos na mão, imitando absorto e distraído as vozes de um desenho animado da TV.
Quando sente em si todo o peso e toda a desgraça da impotência por vê-lo chorando de dor de ouvidos sem que você possa fazer nada além de ministrar o remédio e esperar do lado, com o maxilar rígido e as mão grudadas até que faça efeito.
Quando ele aprende aquele palavrão na escolinha e você acha engraçado mas finge estar extremamente bravo, ofendido e decepcionado, porque é preciso dar o exemplo.

Você realmente sabe o que é o amor, quando essa pessoinha te pega em alguma contradição e você faz um tremendo malabarismo psicológico pra conseguir um contra-argumento convincente, mas fica morrendo de orgulho por ele ter tido a esperteza de perceber a brecha no seu discurso.
Quando ele diz algo que te ofende, que te atinge em cheio a moral ou a estima mas é impossível sequer cogitar sentir raiva.

Quando você deixa de comprar aquele patê importado que adora porque a grana tá curta e você prometeu um patinete se ele passasse de ano.
Quando você deixa de comprar o patê porque ele quer o bonequinho dos sucrilhos.
Quando você deixa de comprar o patê porque vai ter excursão ao Parque da Xuxa.

Quando você nem sente mais vontade de comer aquele patê.


Este post comemora quatro anos do Escola de Canalhas e é dedicado à Julia, que foi minha enteada, a filha dos meus sonhos e a coisa mais linda que já aconteceu na minha vida, pelo período em que estive casado com a mãe dela.
E também é dedicado à Lara, minha primeira sobrinha.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Obrigado!"


Outro dia, por acaso, acabei escutando sem querer aquela música antiga da qual você começou a gostar a pouco tempo e senti mágoa por saber que nunca mais ia escutar as canções sessentistas que você gosta.
Um tempo depois vi uma menina na rua, usando uma camiseta preta e puída de banda e fiquei triste por lembrar do jeitinho autêntico mas de gosto duvidoso como você se vestia.
Me convidaram pra ir naquele café do centro da cidade que você adorava e lembrei dos bate-papos, dos seus planos pueris pro futuro e foi doloroso constatar que eu nunca teria outra chance de sentir ternura e empolgação pela sua juventude.

Outro dia vi o flyer de uma casa qualquer da Augusta e foi desolador pensar que já estivemos juntos e que bebemos juntos e dançamos juntos na maioria delas. Foi ainda mais desolador porque a moça na foto do flyer tinha os peitões grandes e meio caídos como os seus e me senti vazio pensando que meu corpo jamais voltaria a te preencher.
Eu lembrei das noites de loucura, das drogas, dos beijos, das transas nos banheiros, dos encontros insólitos com pessoas estranhas, da tatuagem que fizemos com nossos nomes, dos porres homéricos, dos dias amanhecendo através da janela e dos pães de queijo matinais.

E eu fiquei triste. E a tristeza virou depressão.
E na depressão eu pensei em todas as brigas, em todas as babaquices que dissemos um pro outro. No quanto eu me senti sozinho estando a seu lado, porque você era nova demais pra perceber o tipo de carinho que eu precisava. E pensei que talvez eu tivesse sido velho demais pra perceber o tipo de carinho que você precisava.
Lembrei das cenas de ciúmes, algumas engraçadas, outras ridículas, outras deprimentes. Pensei em todas as coisas que você me escondia, nas pequenas mentiras que eu deixei passar esperando que um dia você percebesse que eu era maior que aquilo, que não havia motivo pra mentir. Pensei em todas as mágoas que a sua superficialidade sentimental me provocaram e que você nunca saberia porque era inapta demais pra enxergar. E pensei em todas as vezes que eu pude ter te vilipendiado sem perceber porque estava focado demais nos detalhes, nas coisas miúdas, nas filosofias e significados ocultos que talvez nem existissem.
Eu me senti traído por ter dedicado tanto tempo e carinho, por ter investido tanto capital emocional e ainda assim não ter tido forças pra fazer nada quando a relação começou a ir à falência de forma tão boba e infantil.
E apesar de todo o desencontro, de todo erro, senti medo de jamais voltar a encontrar quem me correspondesse tão bem na cama ou quem fosse capaz de intrigar tanto e atiçar tanto minha curiosidade e meus ímpetos paternos.

Eu fiquei triste. Por muito tempo.
Até finalmente perceber que não havia motivos pra ficar triste. Que apesar de tudo o que ficou faltando, a gente tentou com o que tinha. A gente fez o que era possível fazer, dadas as circunstâncias e as limitações de cada um. Que o amor acabou mas que, antes disso ele existiu e foi forte, foi intenso, foi extremo. E se esgotou. 
Rápido como tudo o que é intenso. Mas foi ótimo justamente por ter sido assim. Justamente por não ter tido barreiras. Por não ter sido em vão.
Foi só então que eu parei de sentir tristeza e comecei a sentir gratidão. Por tudo o que foi. Mas principalmente por ter sido. Justamente por esse amor ter existido, por eu ter tido a chance de vive-lo e por poder contar essa história.
Senti alegria pelas boas e más lembranças. Por ter tido coragem de me meter numa relação que desde o início dava indícios de ser problemática. Por ter tido esperança de superar os problemas. Por ter usado todo o conhecimento que eu tinha pra resolver esses problemas. Ainda que não tenha sido suficiente.

E então eu sorri. Pleno, satisfeito e realizado. 
Sorri torcendo pra que você possa ser feliz.
Sorri sabendo que eu também vou voltar a ser feliz. Ou que vou morrer tentando. 
Mas mais do que isso, sorri te dizendo “Obrigado!” por dentro.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O fantasma


Quando você divide sua vida com alguém, quando divide seu teto, seus dias, quando você divide sua cama e depois – por qualquer motivo e de qualquer forma – aquilo acaba, é meio como morrer.

De repente você está sozinho de novo. De repente você volta a ser um indivíduo e deixa de ser a entidade de um casal.

E de repente você não sabe mais quais de seus pensamentos são de fato uma opinião sua e quais são reflexos da outra pessoa.
Você escuta sua música favorita daquela banda que te acompanha há anos, mas depois de ter tocado tantas vezes essa mesma música para a outra pessoa, tornou-se impossível desassociar uma da outra.
Você vê nas prateleiras da locadora os filmes que ela adorava e você detestava e sente um vazio áspero, estranho, por não ter mais a chance de implicar com aqueles filmes.
Você vai ao mercado e quando chega em casa, tira da sacola espantado, atônito e triste, aquele item que a outra pessoa sempre te pedia pra comprar. E mesmo que você não goste, agora vai ter de consumir antes que vença o prazo de validade. Só pra não desperdiçar dinheiro.
Você, no meio de uma conversa boba com os amigos percebe-se o maior entendedor de um assunto que não lhe diz nada, que não tem nada a ver com as coisas que você é e gosta, porque aprendeu tudo a respeito daquilo ouvindo ela falar.
Você vai às festas que a outra pessoa gostava de freqüentar e que você acabou acostumando-se a gostar por causa dela e – lá dentro – questiona-se porque afinal está ali e não em outro lugar qualquer.

Mas é o costume. O hábito adquirido. Como o cavalo ensinado que, uma vez arreado faz automaticamente o mesmo caminho. Como o fantasma viciado. Como alguém que – de tão acostumado com a vida – simplesmente esquece que já morreu.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Escola de Canalhas - Parte 2



A verdade é que eu não passava de um moleque. Um guri de vinte e poucos anos, babaca como todo mundo de vinte, vinte e poucos anos de idade, que acha que o tempo nunca vai passar, que as coisas nunca vão mudar, que nunca vai ser tarde demais.
Eu era um imberbe arrogante e ela sabia. Ela tinha a perfeita noção da minha imaturidade, embora me amasse francamente.
Apesar disso (ou justamente por isso) talvez ela se sentisse insegura.  Talvez o fato de ela ser mais velha, mais vivida, mais calejada por relações anteriores e por um casamento que tinha durado mais que o dobro do meu ela percebesse os pontos fracos, as falhas, os buracos daquela relação. Talvez, mesmo querendo que aquilo durasse, que aquilo vingasse - tanto quanto eu queria - ela não fosse capaz de acreditar plenamente no sucesso de nós dois como um casal.
Porque ela via além.
E certa vez, enquanto conversávamos sobre qualquer coisa, de noite, juntinhos, deitados lado a lado na cama, ela disse num tom perfeitamente natural, sem medo, sem rancor, sem tristeza “Você vai se cansar de mim.”
Eu me senti ofendido. Parecia que ela insinuava que eu não era maduro, que eu não estava pronto o suficiente pra aquilo e retruquei “Nunca!” E ela continuou dizendo “Vai sim. Você é jovem, acabou de se mudar pra uma cidade grande, cheia de gente e de encantos, cheia de novidades. Uma hora você vai começar a desejar tudo o que sua vida nova tem a oferecer, agora que você não é mais casado, não tem mais obrigações com a filha da sua ex... e daí você vai me deixar.”

Eu não lembro o que respondi, mas lembro de ter respondido e de ter ficado intrigado porque, embora eu fizesse questão de negar, embora eu desejasse veementemente que ela estivesse errada, aquilo fazia muito sentido. Era muito verdadeiro. “Improvável”, pensei, “mas verdadeiro.”

E embora isso tenha acontecido muito, mas muito antes de eu ter querido terminar o namoro, fico me perguntando se ela tinha mesmo razão e acabou prevendo o que aconteceria no futuro ou se, por outro lado, o fato de ter dito aquilo acabou por plantar o verme da dúvida no meu coração?

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Fazia falta


Fazia falta uma companhia cálida, uma presença plena. Fazia falta alguém que quisesse estar aqui e não em qualquer outro lugar.
Fazia falta uma equivalência de interesses. Fazia falta alguém que quisesse estar junto ao final de um dia cheio de trabalho, como um descanso e não como um repositório de relatórios dos fatos do dia.
Fazia falta um olhar mais terno que cobiçoso. Fazia falta a intenção de dar tanto quanto a de receber.
Fazia falta um cafuné. Fazia falta um beijo demorado. E no rosto.
Fazia falta ouvir elogios.
Fazia falta conversar sobre os mesmo livros. Rir sobre as mesmas piadas bobas.
Fazia falta rir.
Fazia falta sonhar com coisas bobas. Sonhar com crianças e com quintais.
Fazia falta alguém que fosse bem resolvido. Bem informado.
Fazia falta alguém que fosse bem vivido.

Fazia falta um pouco mais de vida. De vida verdadeira. De presenças verdadeiras.
Fazia falta um pouco mais de verdade. De honestidade, até.
Fazia falta um bocado de franqueza. Aquele tipo de franqueza pura, plena e seca, que às vezes até dói.

Fazia falta um telefonema no meio da tarde. Aquele tipo de telefone sem razão. Só por querer. Só pra saber do dia. Só pra ouvir a voz. Só pra contar aquela piada.
Fazia falta alguém que fingisse não saber só pra te deixar falar.
Fazia falta alguém que comesse o que você cozinhou, mesmo sem gostar, só porque você cozinhou como uma forma de demonstrar carinho.

Fazia falta alguém que quisesse te demarcar como um território conquistado.  E te cercar.
Fazia falta alguém que quisesse dormir ao seu lado. E acordasse assustado ao perceber que você não está lá.

Fazia falta...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Escola de Canalhas - parte 1


Eu ainda gostava dela. Ainda admirava sua personalidade, ainda adorava nossos momentos juntos, nosso jantares, ainda curtia a forma como fazíamos sexo e ainda queria a companhia dela o tempo todo.
Mas alguma coisa tinha mudado, alguma coisa lamentavelmente tinha morrido e eu começava a olhar pra fora do âmbito daquela relação. Começava a querer realizar outras coisas, conhecer outras pessoas, começava a desejar outros corpos na minha cama.

Então, antes que acabasse estragando tudo, antes que meu ímpeto canalha me fizesse conspurcar aquela relação tão íntegra e bacana, sentei com ela e fui honesto. Disse que queria terminar.
Ela chorou, disse que me amava e retrucou alguns de meus argumentos de forma tão inteligente que fez com que eu me sentisse um crianção babaca e egoísta.
Todo mundo sabe que um homem perde todas as forças diante de uma mulher chorando e ela também sabia disso.

Eu não terminei.

Voltei atrás na minha decisão, me apaixonei de novo ao longo daquela conversa e terminamos a noite na cama. Mas quando acordei no dia seguinte, comecei a repassar na cabeça o que tinha me levado a começar a conversa da noite anterior, o que tinha me impelido a terminar e como eu tinha sido habilmente demovido da minha decisão e me senti um pouco usado. Enganado, até. E decidi que continuaria com ela não importando o que houvesse. E que, pelo bem ou pelo mal, ficaria naquela relação até que ela mesma decidisse terminar.

Então, quando minha carência falou mais alto, quando voltei a sentir desejo por outras pessoas, simplesmente não me contive e deixei rolar.
Na minha cabeça e naquela época, parecia justo. Eu tinha tentado ser honesto. Eu tinha buscado fazer a coisa certa, mas as chantagens emocionais da guria tinham bloqueado minha intenção. E como todo canalha é um canalha porque antes de tudo é um fraco, dei vez e voz à minha fraqueza e fui realizar aquilo a que meus ímpetos me compeliam.

Traí a menina. Várias vezes. Até tudo finalmente acabar.



sábado, 6 de outubro de 2012

Viver pra quê?


Viver pra quê? Se falta sempre tanto e o pouco que se consegue com tanto esforço te é tomado? Viver pra quê se à medida em que se envelhece sente-se cada vez mais distante das pessoas, do que elas pensam, do que elas gostam e do que acreditam? Se o espírito anseia tanto pela soma da companhia serena e franca das pessoas à sua volta mas a traição, o egoísmo e o descaso são as únicas constantes dessa equação?
Qual o sentido de carregar tanto peso se a recompensa nunca chega, ou chega e é sempre tão fugás que te deixa uma fome absurda?
Qual a intenção por trás de produzir algo? De criar algo? De ganhar dinheiro? De acumular experiências e histórias se tudo isso vai pro túmulo sem que ninguém além de si as conheça?
Qual a razão do otimismo? Qual é o motivo de sacrificar-se em busca da felicidade (qualquer que seja o objeto ou objetivo em que se projete a felicidade) se ela nunca vem.
Se a resposta nunca vem. Se o amor nunca vem. Se os anseios continuam sempre sendo anseios. Se ninguém nunca ganha nada porque ninguém nunca tem disposição pra dar?

Pra quê, se sua análise do mundo é demasiadamente distorcida ou o mundo é demasiadamente distorcido de uma forma tal que presenciar a vida e a rotina dos outros te esmaga o coração e o ânimo?
Se toda tentativa de encaixar-se te obriga a abrir mão de uma infinidade de sonhos e crenças que você cultiva e que te definem.
Se os outros te escutam, mas não te ouvem. Se é simplesmente impossível viver e ignorar a presença dos outros. Se é inconcebível viver sem outros. Se é impensável ser a antítese dos outros.

Viver pra quê? Pra quê acordar todo dia? Se todo dia, quando você acorda, sua auto comiseração, seu amor próprio, seu egoísmo, seu medo, suas obsessões e suas fraquezas te fazem repetir incessantemente: Por que eu?

Mas eu digo o por quê: porque eu quero, preciso e sito que seja um direito meu, depois de tanta decepção, depois de tantos desvios, depois de tudo de errado, de tanto pessimismo, ainda assim ser capaz de encontrar e erigir minha família de comercial de margarina. E ser feliz. Plenamente feliz. Feliz a ponto de esquecer tudo o que há de errado.

E morrer em paz.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Codorna



Então de repente você percebe o tamanho do engano. Percebe a mentira daquilo que vinha tentando negar. De repente você pára e percebe exposta ali, a verdade chata e incômoda que vinha tentando ocultar. Aquela face feia que você vinha evitando encarar.

De repente você entende com toda a clareza do mundo, que seu relacionamento de anos não é mais o mesmo e não tem a menor chance de voltar a ser.
De repente você pára e simplesmente se toca de que a pessoa a seu lado não é mais a pessoa que você conheceu. E começa, de fato,  a aceitar a possibilidade de que provavelmente ela nunca tenha sido. Você olha pra ela, repara nos gestos, nos trejeitos, nos assuntos, na opiniões e fica procurando algum sinal daquela outra pessoa. Daquela outra, por quem você tinha se apaixonado.
De repente você nota que os novos amigos dela sabem mais coisas e mais segredos do que você sabe, hoje em dia. Repara que o armário dela mudou, que o perfume mudou, que a cor do cabelo mudou e não há ali nada mais com que você encontre correspondência.

São os fatos da vida. Não há o que fazer. Não há desejo algum, esperança nenhuma que seja capaz de alterar esse estado de coisas.
E não há com quem falar a respeito, nem há quem possa prover qualquer consolo ou conselho porque ninguém mais sabe o que houve. Ninguém conhece os fatos, ninguém mais conhece os envolvidos de forma tão profunda, com tantos detalhes, com tanto o que lamentar quanto você mesmo. Esse talvez seja o pior tipo de solidão que se possa sentir. O tipo de solidão que não pode ser exprimida, que não pode ser dividida, que não pode ser confessada. O tipo de solidão que só te deixa a possibilidade da resignação.


Como aquela codorna de asas quebradas que você encontrou no quintal da sua avó quando tinha seis anos de idade. Você acolheu, aninhou, investiu seu tempo e seu zelo, cuidou como se sua própria vida estivesse em jogo, passou a noite sem dormir, preocupado, torcendo, rezando pra que ela resistisse, pra que sobrevivesse. Mas então, no dia seguinte você corre até a caixa de papelão forrada com jornal, onde deixou o passarinho e descobre consternado que ele está morto, frio, rígido e com algumas formigas já trabalhando avidamente naquela carcaça, por sobre as penas miúdas do que - uma noite atrás - tinha sido um pássaro vivo, quente, respirando.

Quando isso acontece é porque nada mais resta. É porque, por mais pesar que haja, por maior que seja a vontade de continuar, de insistir naquilo, é hora de deixar pra lá. É hora de enterrar a codorna morta, resignar-se e voltar pro quintal, pra brincar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Antropofagia


A minha vontade é de morder sua virilha. Beber do seu suco. Engasgar com seus pêlos. Esfacelar seu umbigo. Sugar as suas tetas.  Mastigar seu pescoço. Engolir seus cabelos. Sorver sua saliva. Deglutir os seus dentes. Ingerir sua língua. Lamber os seus olhos. Comer sua vida. Sublimar sua alma.

A minha vontade é de te consumir inteira. Com avidez, com pressa, com raiva, com langor, com loucura, com torpor.

A minha vontade é de te fazer minha. Te colocar pra dentro do meu corpo. Me colocar pra dentro do seu corpo. Estupidamente. Com urgência, com veemência. Impossibilitar qualquer coisa que não parta de mim. Qualquer coisa que não nasça de mim. Que não tenha minha autorização, meu consentimento, minha conivência. Te fazer escrava, te fazer subserviente, submetida, conduzida, induzida e comandada.

Minha vontade é de usurpar sua individualidade. De reduzir seu raio de ação, seu poder de decisão. De te arrancar o passado e de atar seu futuro a mim. Ao meu futuro.

Minha vontade é de te prender pra que você nunca vá embora.  Pra que você nunca queira ir embora.  Pra que você nunca mais veja o sol. Pra que você só veja a mim. Só queira a mim. Só saiba o que é viver, vivendo pra mim.

E por mim.

Porque pra mim não existe qualquer outra possibilidade na vida, senão viver por você.

sábado, 1 de setembro de 2012

Um dia você vai amar alguém


Um dia você vai amar alguém. Entre centenas de pessoas vai surgir do nada, numa tarde, alguém que por qualquer motivo insondável te chame a atenção, te encante, te atraia a curiosidade ou o desejo, mais do que a maioria das pessoas.
Com alguma sorte, pode ser que essa pessoa também sinta-se atraída por você. Com mais sorte ainda pode ser que essa pessoa sinta-se atraída por você de forma semelhante à sua.
E se for esse o caso, alguma coisa pode surgir dali. Alguma coisa mais intensa, mais profunda. Aquele tipo de coisa que te arrebata, te tira o sono, te faz querer ficar perto, te domina o pensamento e o peito com a imagem desse alguém.
Se for esse o caso, com o tempo e a convivência você vai acabar conhecendo coisas mais íntimas e saborosas a respeito desse alguém. Vai encantar-se e decepcionar-se algumas vezes com histórias do passado. Vai sentir ciúmes, medo de perder, receio de traição.
Mas também vai sentir alegria, uma sensação cálida de completude, e o conforto mais pleno que a alma possa vivenciar.
Um dia você vai conhecer alguém que te deixe com vontade de se dar, de se dedicar, de fazer todo o esforço possível pra suprir toda e qualquer necessidade que essa pessoa possa ter, em que âmbito for. Vocês vão sonhar juntos com futuros cor-de-rosa, vão desenhar projetos e planos. Vão criar climas, momentos, lugares, viagens. Tudo o que desejam ser e ter um do outro.
Você vai fazer promessas, assumir compromissos, dedicar seu tempo, paciência, atenção, zelo e preocupações sinceras.
Você vai sentir-se quase que abdicando de si. E vai ser agradável porque é sempre agradável abdicar-se de si em função de quem se ama tanto.
Um dia você vai amar alguém e esse amor vai se tornar o centro de sua vida, sua companhia mais agradável, a presença mais constante e a possibilidade mais promissora.
Uns dias serão piores, outros melhores, mas na maior parte do tempo haverá a sensação genuína de que tudo está no lugar certo e de que, apesar das mazelas, a vida tem algum significado.
Haverá sorvetes, passeios, transas infinitas, porres homéricos, jantares memoráveis, festas divertidas e centenas de memórias e lembranças agradáveis.
Um dia você vai amar alguém a ponto de não desejar mais nada do mundo que não tenha a ver com esse alguém. Nada que não contribua com esse amor.

Um dia você vai amar alguém. E tomara que ele te ame da mesma forma, na mesma proporção. Pra que você nunca saiba o que me fez passar.

sábado, 14 de julho de 2012

Matagal


Nessa época eu estava morando sozinho. Minha família tinha recém voltado pra Minas e eu tinha acabado de me separar da minha mulher. Estava endividado até as orelhas porque tinha tido que alugar uma nova casa e recomprar quase todos os móveis e utensílios domésticos.
Eu estava tão desmotivado, tão deprimido e apartado do mundo que a louça foi acumulando-se na pia até o ponto em que o armário estava completamente vazio e eu só lavava o que precisava usar quando precisasse. Eu chegava do trabalho, comia alguma coisa, assistia um filme e passava umas oito horas tocando violão. Depois dormia no sofá da sala e quase de manhã ia pra cama. Depois ia pro trabalho, fazia o que tinha de fazer e voltava pra casa no fim do dia, começar tudo de novo. As coisas iam acontecendo à minha volta, sem que eu participasse delas. Sem que eu tomasse qualquer decisão.

Os dias iam passando, eu deixava que eles passassem. E só.

Foi então que a vizinha chata da casa da direita me denunciou pra vigilância sanitária porque meu quintal tinha tanto mato que estava invadindo o dela e - num dia qualquer - apareceu um funcionário da prefeitura pra capinar aquilo tudo.
O homem tinha uns 45 anos de idade, um ar caipira e triste, as roupas meio sujas e umas cicatrizes grandes no rosto. Enquanto ele fazia seu trabalho eu preparava o almoço e íamos conversando. Contei que era mineiro, que adorava pimenta e ele disse que também gostava muito. Dei pra ele algumas que tinha na geladeira e o homem retribuiu me presenteando com um molho de malagueta e alho que ele mesmo tinha preparado e carregava na mochila.
Experimentei o molho – que era absurdamente bom – elogiei e o cara me contou que o tinha preparado pouco antes de sair da cadeia. Perguntei porque tinha sido preso e ele disse que, certa noite, numa festa lá em sua terra natal, sua esposa bêbada tinha trocado olhares com outro homem, que sentiu-se confiante para investir, ainda que soubesse que a mulher era casada.
Segundo o cara, ele e a esposa não vinham bem há algum tempo, mas ele gostava dela e estava fazendo o possível pra manter a relação nos trilhos e tê-la a seu lado. "Mas uma mulher insatisfeita é um bicho difícil de se domar." E naquela festa, talvez pra sentir-se querida, talvez pra causar ciúmes ou talvez pra deixar claro que já não se sentia mais envolvida pela marido, ela resolveu flertar com este outro homem. Mas os homens têm sempre um sentimento de posse muito forte em relação às suas mulheres. Sentimento difícil de conter, ainda mais quando se sente algum carinho ou apego pela mulher em questão. E daí o marido sacou uma faca que carregava sempre consigo e esfaqueou o homem. Três vezes. No abdôme.

O marido também estava muito bêbado, de modo que sua agressão não foi fatal o suficiente pra matar o outro. Mas foi fatal o suficiente pra que ele fosse condenado a três anos de cadeia. E esses três anos foram suficientes pra que sua esposa deixasse de sentir-se esposa e recomeçasse a vida em outra cidade, com outro homem.
O marido, que agora não era mais marido de ninguém, saiu da cadeia sem nada. Sem casa, mulher, emprego. E às duras penas vinha tentando recomeçar as coisas. Refazer-se depois da destruição que aquele amor tinha lhe causado. Reaver a vida que tinha sido levada com a mulher com quem tinha dividido os dias. Recomeçar, depois que ela tinha acabado com tudo.

Depois de terminar a história e depois de terminar o trabalho o homem foi embora. O quintal estava limpo. A casa parecia ter recuperado um pouco da civilidade, um pouco do equilíbrio, um pouco de organização.
Eu tinha perdido um amor, minha família estava longe eu estava quase sem dinheiro. Mas ainda tinha meu trabalho, tinha minha casa e uma porção de planos pra colocar em prática. Aquele cara tinha ido pra cadeia e perdido tudo, mas estava ali, tentando superar as perdas e correr atrás do prejuízo. Ele tinha perdido mais que eu e ainda tinha esperanças de recuperar. Eu precisava deixar de ser bundão, acabar com o matagal que tinha se tornado minha vida e continuar caminhando pra fazer com que as coisas dessem certo.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Quando olho pra ela


Eu olho pra ela e vejo os cabelos curtinhos e repicados. O vestido preto e aquele jeitinho de dançar divertido. Aqueles movimentos fora de ritmo de quem está dançando pra si e só pra si. Lembro daquele beijo brusco, todo espontâneo e cheio de desejo. Lembro do desejo que senti. Logo naquela noite em que eu tinha saído sem qualquer intenção de conhecer alguém.

Eu olho pra ela e vejo os finais de semana em casa. O começo das noites de domingo, quando ela tinha que ir embora e nenhum dos dois queria que ela fosse embora. Lembro de gostar de tê-la comigo e querer profundamente que ela fosse minha. Lembro do medo que às vezes sentia de que ela simplesmente se cansasse e desaparecesse da minha vida. Que deixasse de fazer parte da minha rotina. E eu vinha gostando tanto da minha rotina com ela. Lembro de telefonar toda tarde pra saber como tinha sido o dia. Pra ouvir ela dizer que tinha sentido minha falta, torcendo pra que ela se convidasse pra ir em casa.

Eu olho pra ela e vejo eu entrando no último ônibus que parava em frente a sua casa. De deitar juntos na rede e ficar conversando sobre as coisas mais aleatórias enquanto eu buscava alguma forma de chamá-la pra vir morar comigo sem parecer precipitado, sem parecer babaca, sem parecer psicopata.
Eu lembro de quando ela veio ajudar a pintar meu novo apartamento e do quanto eu gostava de ter a mão dela naqueles afazeres. Porque era como se ela tivesse se feito meio dona daquele apartamento também.

Eu olho pra ela e me vejo fazendo minhas tatuagens. Ela sentada do lado, sorrindo aquele sorriso empolgado, aberto, cheio de fulgor e excitação pela novidade. Eu vejo as primeiras tattoos que fizemos juntos e as noites em que acordávamos com dor porque tínhamos esbarrado nos machucados.
Eu lembro de quando fomos pra praia e todo mundo estava dormindo lá em cima enquanto a gente assistia TV no sofá da sala e eu disse pra ela que mesmo que não estivéssemos juntos no futuro eu já me sentia suficientemente abençoado por ter podido tê-la por um tempo. Por ter podido conhece-la. E lembro que nessa mesma noite confessei que, apesar disso ainda preferia poder vê-la envelhecer.  E ela chorou.

Eu olho pra ela e lembro de quando eu tive de voltar a trabalhar fora, por causa da falta de grana. Dos ciúmes que eu sentia por passar 10 horas por dia, longe. Da falta que eu sentia de acordar quando ela saía pra faculdade. Da falta que eu sentia de ficar vendo ela dormir enquanto eu virava a madrugada trabalhando no computador.
Lembro das brigas que a gente teve quando ela me ajudou a fazer meu curta-metragem. Do medo que eu tive de que a gente brigasse tanto que acabasse se esgotando. E do quanto eu odiei aquele curta-metragem por ter me feito quase perdê-la.

Eu olho pra ela a vejo sorrindo boba e bêbada na madrugada em que a pedi em casamento. Do quanto eu tremi quando fui anunciar o pedido ao pai dela. Das noites planejando a cerimônia e das coisas mais bizarras que ela queria que o tal casamento tivesse.


Eu olho pra ela e vejo que aos poucos ela vai deixando de ser a garotinha quase adolescente que conheci e vai se tornando mulher. Eu vejo as decepções que ela teve comigo e com o mundo. Vejo ela mudando a postura, a opinião, o cabelo, os trejeitos. Vejo ela deixando de ser a roqueirinha desleixada e tornando-se cada vez mais vaidosa. Vejo ela planejando a decoração no nosso primeiro apartamento realmente juntos. Vejo ela empolgada pra escolher as cortinas, decidindo a disposição das coisas e me pedindo um cachorro.

Eu olho pra ela e vejo o quanto ela me faz feliz.

terça-feira, 13 de março de 2012

A torneira


Uma vez li essa história (que se não me engano, recentemente foi adaptada pro cinema) de um rapaz que era o caçula de dez filhos de uma família paupérrima de Belo Horizonte. Pela falta de condições de alimentar todos os filhos, a mãe deixou-o na FEBEM e a partir dali o guri viveu uma sequencia quase interminável de agruras que lhe mostraram o quanto a vida poderia ser amarga e o quanto as pessoas podem ser cruéis, abusivas, superficiais e mesquinhas.
Depois de mais de 100 fugas da instituição, de envolver-se com drogas, com furtos, de ser adotado por pessoas interessadas em usá-lo como amante ou empregado, certo dia uma senhora francesa que fazia pesquisas sobre as condições sociais no Brasil, interessou-se pela classificação de "irrecuperável" constante na ficha do menino e levou-o pra sua casa a fim de fazer algumas entrevistas.

Com o tempo o garoto foi cedendo, acostumando-se novamente a confiar e deixando-se ser cuidado. Foi permitindo-se dar e receber carinho franco e desinteressado.
Ele passou a morar com ela e aprendeu a ler e escrever e a falar francês.

Um ano depois, ao ouvir falarem sobre a expiração do visto da mulher, o garoto desesperou-se sentindo a eminência do abandono e, temeroso resolveu dar cabo da situação de insegurança que lhe afligia agora o coração.
Enquanto a mulher estava fora de casa, ele abriu a torneira da banheira deixando-a transbordar e alagar a casa inteira.
Sua intenção era provocar a mulher pra que ela tivesse a mesma reação violenta e egoísta com a qual tinha sido acostumado a lidar. Dessa forma poderia ser abandonado (ou até mesmo acelerar o momento do abandono) tendo a certeza de que ela não era uma exceção. De que era como todos os outros e nunca o tinha amado de verdade.

Não é um comportamento tão atípico. Diversas vezes fazemos as mesmas coisas (em níveis e intensidades diferentes). Por medo de perder, abrimos a torneira e antecipamos o fim. Desistimos no início pra evitar dores maiores posteriores. Encerramos uma história prematuramente pra não dar tempo da possibilidade de um final trágico conspurcar a esperança num final feliz. Então optamos por um final triste. Um meio termo sentimentalmente suportável.

Ao agredir a mulher que lhe tinha acolhido, o rapaz poderia mais uma vez ir embora sabendo que o mundo continuava tão inóspito quanto tinha aprendido que era e nunca mais sofrer pelo medo de perder alguma coisa valiosa. Poderia continuar a vida sem medo de perder a oportunidade de ser verdadeiramente amado, simplesmente porque tal oportunidade não existia e nunca tinha existido.
Quando chegasse em casa, a mulher lhe agrediria e ele teria a certeza que queria ter. Deixaria de sentir medo de perdê-la, fugiria de novo e teria aprendido mais uma lição importante sobre a rispidez da vida.

Mas não foi o que aconteceu. Ela chegou em casa, viu tudo irrecuperavelmente molhado, subiu até o quarto do rapaz, abraçou-o forte e demorado. E chorando disse "O que mais eu tenho de fazer pra te provar que te amo?"

sábado, 10 de março de 2012

Novo demais


Quando eu tinha 18 anos já era noivo e estava de casamento marcado pra dali uns meses. Muitos meses, mas ainda assim, meses.
É lógico que meus pais, mesmo chocados por acharem que eu não tinha idade suficiente pra isso, apoiavam minha decisão. Outros membros da família, agregados e  amigos estavam somente na condição do choque e não na do apoio.

Um dia fui visitar uma amiga da minha família, uma mulher por quem eu tinha muito respeito e uma admiração quase filial.
Não lembro como o assunto veio à tona mas falamos sobre a eminência do meu matrimônio e ela me deu alguns conselhos.

Contou que tinha se casado aos 17 anos e que naquela época, como hoje, amava muito o marido. Disse que nunca tinha se arrependido de nada com relação ao casamento, que lhe trazia felicidade e lhe dera três lindas filhas. Mas disse que, no entanto, ressentia-se um pouco por não ter podido namorar mais tempo. Conhecer outras pessoas além do primeiro e único namorado com quem tinha casado. Ter histórias de vida pra contar que não tivessem sido sempre ao lado daquele mesmo homem.

Na época eu discordei. E discordo ainda hoje.
As pessoas frequentemente repetem pra uma série de coisas o argumento de que se é novo demais.
Novo demais pra morrer, novo demais pra casar, novo demais pra trabalhar, novo demais pra viajar.
Balela. Não existe tal coisa. Ninguém é novo demais pra coisa alguma simplesmente porque as coisas podem vir a qualquer tempo. Não ter maturidade suficiente pra tomar uma decisão ponderada é uma condição irrevogável por toda a vida. Toda nova situação é uma situação da qual não se sabe as consequências, é uma situação inédita e por isso mesmo, totalmente passível de erro. E o erro é mais uma daquelas coisas das quais não se pode fugir. Cada experiência é única e isso é que é o grande barato de vivê-las. Algumas são parecidas e outras são absurdamente parecidas, mas iguais, iguaizinhas mesmo, nunca!

Além disso, as pessoas supervalorizam o namoro. E o volume e variedade do namoro. Mas o namoro é um tipo de relação fadada ao fracasso. Ou ele acaba porque o casal se desfaz ou acaba porque o casal se rearranja na configuração do casamento. E cada namoro desfeito nada mais é que a constatação da imaturidade de uma pessoa de não ser capaz de escolher alguém que combine satisfatoriamente com ela.

Cada decisão traz consigo um sacrifício. Cada escolha vem com a necessidade de desistir de algo.
Naquela época eu já considerava que viver com a minha noiva traria mais felicidade do que a possibilidade de beijar quantas e quais garotas eu pudesse vir a querer pelo mundo. Eu acreditava que juntos nós poderíamos construir coisas bem mais ricas e interessantes do que individualmente. E que a história mais bacana que eu fosse querer contar seria a história do sucesso do nosso amor, e não histórias do fracasso de relações passadas e desfeitas com pessoas com as quais eu não tinha mais correspondência.

No fim, acabei não me casando e aquela se tornou mais uma das histórias de fracasso que costumo postar aqui. Mas embora eu tenha deixado de acreditar na pessoa com quem tinha desejado me casar, nunca deixei de acreditar na firmeza e coerência daquele meu desejo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Fidelidade / Lealdade



Em toda mesa de bar, programa de televisão, roda de amigos ou matéria de revista que em algum momento se proponha a discutir questões referentes ao comportamento humano e, principalmente, relacionamento humano, acaba-se eventualmente tocando na questão da fidelidade conjugal.
A maioria das opiniões concorda no principal: que fidelidade é importante.
Outras opiniões divergem e se bifurcam, caminham em paralelo e muita coisa acaba ficando sem resposta.

Das questões não respondidas, uma em particular sempre me encafifou mais. É que, não raro nesses bate-papos acaba-se correlacionando fidelidade com lealdade e dando-se valores e pesos diferentes pra cada conceito.
Os defensores da monogamia costumam apoiar que uma é indissociável da outra. Mas se enrolam ao tentar definir a segunda.
Os polígamos defendem que mais importante que a fidelidade conjugal propriamente dita é a lealdade. Mas não conseguem também explicar como isso funciona de forma prática.

Fidelidade conjugal é muito fácil de se definir: duas pessoas se relacionam amorosamente e estipulam um contrato (explícito ou implícito) que estabelece os limites da relação. Esses limites normalmente estão vinculados à noções pessoais de moral, liberdade individual e conveniências sociais. Quando alguém descumpre os termos do contrato (consciente ou inconscientemente), isso é chamado de infidelidade.

Sem precisar recorrer ao clichê de transcrever a definição do dicionário para "lealdade", é relativamente fácil compreendê-la como sendo o compromisso de uma pessoa de resguardar os limites morais e sentimentais da pessoa com quem ela se relaciona. E pensando nisso, lembrei de uma história que - se não define - pelo menos explica o que acabei de dizer.

Quando eu era casado minha mulher tinha uma amiga dos tempos de escola que freqüentava vez ou outra nossa casa. Ela era casada desde o colegial e tinha uma filha.
A cada visita as mulheres se sentavam e ficavam horas conversando sobre o cotidiano, os problemas familiares e seus relacionamentos. Normalmente eu estava no meu estúdio e escutava uma coisa ou outra.

Porém, certa vez fiquei com elas e participei das conversas. Nessa ocasião a amiga deslanchou a falar sobre o marido, reclamando de certas posturas e certas atitudes dele. Coisas relacionadas ao casamento dos dois e à intimidade conjugal.
Eu entendia que minha mulher e a amiga eram bastante próximas e partilhavam confidências, mas me incomodei pela outra estar expondo detalhes (e principalmente defeitos) acerca do marido que, na minha opinião eram intrínsecos à relação dos dois e só deveria dizer respeito a eles.
Me senti ofendido ao imaginar que minha esposa também pudesse abrir pra terceiros questões que eram nossas e só nossas.  Que pusesse a público, intimidades e detalhes inerentes à nós dois, deixando que pessoas de fora, com entendimento parcial da nossa dinâmica juntos, pudessem ter opiniões potencialmente equivocadas, além de sentirem-se no direito de interferir na relação em qualquer âmbito que fosse.

E foi então que realizei a questão toda. A amiga da minha esposa sentia-se à vontade pra expor fatos de sua relação a terceiros e a listar opiniões sobre seu marido que - muito provavelmente - não expunha ao próprio marido. Ela abria pra sua melhor amiga, definições, opiniões e conceitos que escondia da pessoa a quem tinha escolhido pra compartilhar a vida e construir uma família. Com isso, permitia que outras pessoas acabassem por formular opiniões e julgamentos sobre seu cônjuge, que ele mesmo ignorasse, tirando-lhe não só o direito de se defender, como a possibilidade de se remediar.
Ela até podia ser fiel ao marido e nunca tê-lo traído conjugalmente. Mas com toda certeza, agindo assim, não lhe era leal.