terça-feira, 28 de junho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Primeiro Amor

Eu me encontro numa situação muito peculiar.
Não tenho palavras. Primeira vez na vida não sei como descrever esta paixão, não tenho adjetivos pra catalogar essa relação, não tenho dados pra mensurar esse amor.

Talvez porque ele esteja acima disso. Talvez porque ele seja imperscrutável, indefinível, imensurável. Talvez porque ele seja tão pleno que eu sozinho não alcance. Talvez porque ele seja maior que eu.

Ou então talvez porque esta seja - em detrimento de tudo em que eu cria - a primeira vez que realmente saiba o que é amor.

Exatamente como você.

Então, naquele dia eu estava indo pro trabalho, absorto em pensamentos, deixando a cabeça vagar por idéias aleatórias como costumo fazer.
Não lembro como acabei chegando naquele assunto. Não lembro como acabei indo visitar aquelas lembranças específicas que estavam (eu pensava) encerradas no baú das coisas bem resolvidas (afinal, todo o dinheiro gasto com a análise tinha sido pra isso mesmo)!

Mas as lembranças vieram à tona. Elas retornaram e de repente percebi. De repente algo clareou-se, algo fez sentido - muito sentido - e era melhor que não tivesse feito.

Eu pensei em você. No amigo que você era. Nas cervejas que tomamos juntos, nos segredos que te contei, nas bandas que você me apresentou, nos banhos que te dei quando você teve fratura exposta no joelho, nos filmes que assistimos e nas coisas que você me contava sobre as mulheres que tinha levado pra cama.
Eu pensei nas idéias que você explanava, no modo como você gesticulava, na sobriedade do seu tom de voz, no seu olhar desconfiado.

Eu te redesenhei na minha cabeça e lembrei de quem você era. E comecei a chorar. Copiosamente. Pela primeira vez desde que eu era criança. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu.

Foi só então que eu percebi que o trauma tinha sido realmente grande. Que eu assumi que o trauma tinha sido realmente grande.
E só fui capaz de perceber isso porque, quando as coisas se clarearam em meio ao devaneio das minhas idéia, eu descobri que tinha me tornado você. Que desde então eu vinha te emulando. Repetindo seu jeito, seus gestos, seu modo de pensar o mundo. Sua desconfiança e falta de moral. Seu ímpeto predatório. Seu ímpeto auto destrutivo.
Eu estava te imitando sem perceber. Copiando sua personalidade. Copiando os erros que cometeu.

Eu chorei. Não pela sua traição. Nem porque seu pau me roubou o lar, me destruiu a família e a vida que eu tinha levado tanto tempo e dinheiro pra erigir. Mas porque você levou o que eu tinha de mais valioso.
Você levou o que eu era. Matou tudo o que eu gostava em mim. Me rebaixou ao seu nível, me transformou em tudo de pequeno, vil, mesquinho, feio e sujo que havia em você.

Eu chorei por ter sido fraco de deixar que isso acontecesse. Por permitir que você me afetasse tanto. Por ainda estar pensando nisso depois de tantos anos. Por ter sido bobo. Por ter confiado. Por ter amado. Por não ter tido a malícia.

Então tudo cessou. E enxuguei as lágrimas, disfarçando (porque eu estava em público), recoloquei a máscara com a sua cara e segui em frente. Sorrindo. Cínico.

Exatamente como você.