sábado, 12 de novembro de 2011

Aleatório


Os critérios que levam uma pessoa a se interessar por outra são os mais aleatórios possíveis. Os meus são os seguintes:

A atração física é sem dúvida o primeiro a ser considerado. É instintivo, talvez alguma coisa que acione o inconsciente animal genético, algo que te faça buscar alguém que tenha genes potencialmente perfeitos. Entretanto, não é muito difícil encontrar por aí, mulheres que sejam bonitas em vários níveis. Não é complicado encontrar um belo bumbum e um par de seios dificilmente é algo que possa ser chamado de feio. Uma gordurinha eventual é excelente e até uma sobra dessa gordurinha pode compor um todo aprazível aos olhos (e ao tato, principalmente).
O rosto pode ter infinitas configurações e eu particularmente rejeito rostos muito simétricos, muito perfeitos. Prefiro aqueles mais angulosos, olhos grandes e narizes exóticos Pra falar a verdade tenho uma certa tara por narizes grandes e/ou aduncos.
Curiosamente, a grande maioria das mulheres que conheço têm esse perfil (literalmente). Não que eu sinta atração física por todas elas, mas parece que, ou há uma aproximação natural desse tipo pra comigo, ou o volume de mulheres nascidas com rostos angulosos e narizes grandes foi absurdamente grande entre 1970 e 1990.

A personalidade também é um fator importantíssimo pra definir meu grau de aproximação com alguém. Personalidades fáceis ou rasas são automaticamente rechaçadas (para qualquer fim, seja ele amizade desinteressada ou sexo casual-vou-te-dar-um-nome-falso).
Ter algum repertório cultural é importante. Algum. Não precisa ser PhD em nada. Gostar do mesmo estilo musical facilita, gostar de muitas ou algumas bandas que gosto é um adicional bacana.
Mas isso também não é nada difícil, dado o fato de que freqüento lugares que atraem pessoas que gostam das mesmas bandas e das mesmas músicas que eu. Também freqüento lugares onde as pessoas são razoavelmente pensantes e costumam ler algo mais do que revista de novela e fofoca.

O toque é mais um dos critérios de sumária importância. Este é o tipo de coisa que não se ensina e que não se aprende. Ou se tem, ou não. Mas este pode variar de pessoa pra pessoa. É o bom e velho "lance de pele". Um beijo ruim pra mim, pode ser muito bom pra outro cara. Mas o beijo bom, o beijo que une, que liga, que envolve, que acalenta e excita, sem sombra alguma de dúvidas é determinante. Tão determinante que se os dois critérios de cima forem perfeitamente correspondidos, mas este não: já era!

Saber vestir-se bem é outra coisa que considero. É um critério que pode ser inerente a pessoas de personalidade interessante, mas nem sempre. Conheci pessoas extremamente boçais que vestiam-se muito bem e pessoas fantásticas que vestiam-se muito mal. Por isso é um critério que observo mas que me permito relevar. Pra ser franco é algo que relevo mais do que considero. Há até um certo charme em mulheres que prezam mais o conforto que a elegância e também há um charme pueril em mulheres que nem sabem que se vestem mal. Já aquelas que se vestem mal e acham que se vestem bem, não.

O timbre e o tom de voz é um critério que se observa depois de um tempo. Não é nem um pouco primordial mas adiciona qualidade quando se tem uma boa voz sussurrando carinhos ou indecências ao pé do ouvido. Observando é claro, que a mesma voz que soa divina recitando palavras impróprias a menores de 18 anos pode ser desastrosa dizendo palavras de ternura. E vice-versa.

Outro critério que observo amiúde é o gestual. Mas as preferências são flutuantes. Uma mulher pode ser muito atraente quando gesticula de forma delicada e lânguida, mas também pode ser charmosa quando soa um tanto desajeitada, infantil ou até masculina.

O asseio é sem dúvida um critério de importância máxima. Uma mulher que transpareça frescor, limpeza, vaidade. Uma mulher perfumosa, sem dúvida é alguém com senha preferencial. E neste quesito, duvido que haja alguém (mesmo o homem mais fetichista) que discorde de mim.

Levando-se em conta todos esses critérios e os diferentes graus de importância e peso que dou a cada um, é perceptível que - embora haja talvez um perfil muito bem delineado do tipo de mulher que me atrai - não é nada complicado encontrar pela vida, no mínimo uma centena de pessoas que me deixem interessado e até mesmo apaixonado.
Dito isto, é curiosíssimo o fato de que, entre tantas pessoas que conheci, entre tantas pessoas que me atraíram, eu tenha ficado tão irrecuperavelmente apaixonado por essa garota em específico.
Que entre tantos cabelos negros, eu tenha elegido os dela como os mais belos e cheirosos.
Que entre tantos narizes, o dela me fascine tanto. Que entre tantas bocas, a dela me tire da realidade com tanta competência. Que entre tantos perfumes o dela me envolva à embriaguez Que entre tantas vozes, a dela possa causar tantos distúrbios, seja falando indecências, seja murmurando com ternura ou até mesmo narrando displicentemente as banalidades cotidianas.
É estranho que num mundo repleto de personalidades e figuras ímpares, a psique dela me atraia tanto a curiosidade e seja um mistério tão imperscrutável que não só me enlace, como me modifique.
É quase absurdo que os gestos dela me encantem, comovam e fascinem tanto, em detrimento de todo o resto de pessoas com quem tive o prazer de travar contato.

Entre centenas de mulheres que conheci, eu conheci ela. E entre tantas escolhas que já fiz, ela parece ser a mais acertada. A mais pontual. A mais inquestionável.

Que entre tantos encontros aleatórios, ela tenha sido a única certeza.


sábado, 5 de novembro de 2011

Diálogo 8

Enquanto ela estendia as roupas no varal e ele ajudava:

Ela: "Já decidiu que cor vai usar nesse Reveillon?"
Ele: "Vermelho."
Ela: "Quer amor pro ano que vem?"
Ele: "Eu quero sempre, mas a questão não é essa. Pensei em usar amarelo pra atrair dinheiro, mas como na minha vida é sempre 'sorte do jogo e azar no amor' ou 'azar no jogo e sorte no amor', decidi escolher o amor em detrimento do dinheiro, porque fiquei com medo de escolher o dinheiro e perder você."
Ela: "Mas que fofo... Também te amo."

Cinco meses depois eles se separaram por falta de dinheiro.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pelos Olhos Dela


Ela tinha um jeito como quem sente medo de tudo. Uma postura introspectiva, excessivamente reservada, retraída, miúda. Como uma vítima, como um ratinho que se esconde pra sobreviver.
Não que ela se fizesse de coitada. Jamais. Eu nunca a ouvira reclamar da vida ou colocar-se na condição de ré. Era sua postura. Continha algo daquele tipo de gente que tomou tanta surra da vida que acabou tornando-se arredia, inalcançável, comedida.
Ela tinha dor nos olhos. Mas não era aquela dor pesada do velho. Da pessoa vivida que já perdeu toda a fé, todo o gosto pela humanidade. Era uma dor de quem apanhou mas tem esperança na redenção. Era como o guri que corre em direção a praia no filme do Truffaut. Era como um passarinho que tem a asa quebrada mas que sabe que aquilo é condição passageira.

Então eu me apaixonei. Eu que era só confiança, só arrogância, só otimismo. Me apaixonei e jurei que mostraria praquela guria que ela estava errada. Que não havia motivo pra ter tanto medo, tanta desconfiança, tanta dor. Eu jurei pra mim que daria a ela um punhado da minha extrospecção. Que lhe mostraria o lado bom das coisas. Que lhe traria pro brightside da vida.

É claro que eu era novo demais, incauto demais, metido à besta demais. Eu achava que entedia como as coisas funcionavam, achava que não havia chances de aquela garotinha miúda, infante e tímida conhecer do mundo mais detalhes que eu.
Mas é claro que eu era novo demais e estava completamente equivocado.


A guria me mostrou o mundo por seu ponto de vista. Mostrou de onde vinha tanta dor, tanto medo, tanta ameaça. E eu entendi. Vi o tamanho do meu erro. Vi como tudo podia ser tão cinza, cruel, mesquinho e ameaçador quanto ela via. Vi que ela tinha razão.

E desde então tudo o que eu vejo, vejo pelos olhos dela.

domingo, 16 de outubro de 2011

Ali do lado


Ela se esqueceu. Por um momento breve. Num lapso fortuito achou que ele estaria ali. Mas não estava mais, claro.
O sofá de couro preto não estava mais enrugado no lugar em que ele gostava de sentar. O cheiro dele no travesseiro já tinha se dissipado. Sua cópia das chaves estava em cima da cômoda. Seu frasco de perfume já tinha sido levado embora. Suas revistas favoritas não empilhavam-se mais na estante. Seus fios de cabelo não estavam mais no ralo do banheiro.

Mas por um momento ela se esqueceu e parecia ser possível mais uma vez escutar ele cantarolando enquanto tomava banho. Sentir o cheiro do cigarro na área de serviço. O roçar dos dedos gelados dele em seu calcanhar durante a madrugada.

Não havia mais qualquer sinal dele pela casa. Era como se nunca tivesse estado lá. Como se nunca tivesse existido. Tudo dele havia sido apagado, levado embora ou substituído havia muito tempo. Mas na memória, às vezes parecia que ele estava ali. No cômodo ao lado. De onde jamais deveria ter saído.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Relacionamento Maduro

Situação bastante comum. Um relacionamento longo recém terminado. Sem brigas, sem discussão Apenas terminado. Provavelmente porque uma das partes não ama, não se identifica mais com a outra.

Num relacionamento maduro, mesmo que alguém esteja ferido, mesmo que se sinta abandonado, não há porque não continuar amigos. Alguns almoços, algumas trocas de favores e telefonemas.
Num desses telefonemas ela contava sobre os incidentes do trabalho, sobre problemas com os quais se confrontara, sobre a falta de dinheiro, etc.
Ela falava e ele ouvia atento, concordando com algumas coisas, discordando de outras, oferecendo pequenos conselhos. Sendo maduro.

Mas de repente, na distração da conversa, no ritmo do bate-papo, em meio às amenidades, totalmente sem querer ele diz, não o nome dela mas o apelido carinhoso pelo qual se tratavam antes do fim do namoro.
Leva-se alguns segundos pra perceber o que aconteceu.
Silêncio.
Os dois não sabem o que dizer, não sabem o que justificar. É um equívoco comum mas totalmente desconcertante.
De repente é como se não tivesse acabado. Como se a relação prosseguisse, como se os laços amorosos ainda gozassem de ternura, como se aquele respeito mútuo, aquele afeto pudesse reacender a chama, retroceder o tempo pra antes das coisas se tornarem cansativas, pra quando se podia e queria compartilhar mais que amenidades cotidianas.

Mas não se pode, é claro, e todo mundo sabe disso. Sabe. Mas não aceita. Maturidade não conversa com amor. Racionalidade não tem nada a ver com os sentimentos.


Não existe um relacionamento maduro quando é um relacionamento de amor. E não existe um fim isento de sentimentos numa relação dessa natureza. O que existe é a vontade maquiada de continuar. De ainda ter alguma coisa daquela pessoa, de ter a chance de manter algo vivo. De manter alguma proximidade. De saciar - ainda que superficialmente - a necessidade da correspondência afetiva do outro.

E então, numa hora dessas, o que resta é reatar os laços de forma efetiva e completa ou - se uma das partes acredita mesmo que não haja possibilidades de que isso aconteça - não telefonar nunca mais.

O único jeito de terminar um relacionamento amoroso de forma realmente madura, é desatar todos os laços. Sem ternura, sem amenidades, sem amizades depois.

Lie to Me

Havíamos tido uma grande discussão. Como várias que vieram antes e várias que vieram depois. Mas nessa em específico eu estava tremendamente irritado e ofendido com a tentativa que ela tinha feito de mentir pra mim.
Nem era uma grande mentira. Mas eu não tolero, é meu calcanhar de Aquiles. A simples idéia de ter alguém que possa querer me passar pra trás, me fazer de bobo, ludibriar ou omitir algum fato importante me tira completamente do sério. Desde criança.

Até por conta disso - e usando o pretexto da minha pretensão de me formar em psicologia - é que na adolescência me entupi de literatura e reportagens discorrendo e estudando sobre a mentira.

Eu sabia identificar uma mentira. E não gostava.

Então, naquela discussão, durante minha cólera eu bradei: "Não tenta mentir pra mim. Não tenta me enganar. Você não consegue. Pára de tentar competir e simplesmente seja franca comigo da próxima vez."
Embora nervosíssimo, eu não tinha qualquer intenção de ofendê-la. Queria convencê-la que a verdade era o melhor caminho. O único jeito de eu ser capaz de respeitá-la e conviver com ela. O único jeito daquela relação funcionar.
Mas ela era - lógico - tão orgulhosa quanto eu e tomou aquela frase como uma afronta, como um desafio. Se eu tinha sentenciado que ela não era capaz de me enganar, ela iria (desse dia em diante) fazer de tudo pra me mostrar que eu estava errado. O tipo de coisa que acontece amiúde em relacionamentos juvenis e doentios.

Num dos vários finais de semana que passávamos na minha casa, entrei de repente no quarto, vindo de qualquer lugar e a guria se assustou.
Ela estava usando meu computador e vi que - no susto - minimizou rapidamente uma janela qualquer.
Sorrindo, perguntei o que acontecia e ela respondeu que conversava com um amigo.
Pedi que abrisse o programa e me mostrasse a foto do amigo. Era alguém que eu não conhecia e, pelo modo como a janela estava disposta dava pra ver a foto do rapaz e uma resposta dela: "Que bom. Fico mais tranquila com isso."
Perguntei com o que ela "ficava mais tranquila" e a resposta foi uma história a respeito de um quiproquó qualquer envolvendo um mal entendido entre uma amiga sua e o rapaz da conversa. Ela explicou que estava intermediando a resolução do problema e que agora, finalmente, tudo se resolvera.

Mentira. De novo.

Insisti pra que dissesse a verdade e ela insistiu que a verdade era aquela.

Durante a semana, pedi pra que um amigo que entendia de informática me instalasse no computador um programa espião. Depois de uma semana do programa instalado, interceptei outra mensagem pro mesmo rapaz na qual ela contava que eu quase a tinha flagrado durante a conversa. O rapaz perguntou se tinha havido algum problema e ela explicou que não. Que tinha me inventado um desculpa qualquer e tudo tinha terminado bem.
Imprimi a mensagem, entreguei-lhe o papel, sentei a seu lado e pedi pra que - agora - me dissesse a verdade.
Assustada, a garota contou outra história. Disse que alguns meses antes, logo depois de uma briga nossa, ela tinha ido a um bar com a amiga. Que tinha encontrado este rapaz (um colega de longa data) e que tinha flertado com ele. Ela explicou que tomou um fora e que isso a tinha feito sentir muita vergonha. E concluiu dizendo que naquela conversa em que eu tinha pedido pra ver a foto do rapaz, ela estava justamente se desculpando por ter sido tão impetuosa e esclarecendo que a situação a havia constrangido.

Dessa vez era verdade.
Levantei-me agradecendo pela franqueza e avisei que, mesmo que essa história fosse verdadeira, a anterior tinha sido mentira e por isso eu gostaria que ela fosse embora e me esquecesse.
A menina chorou. Pediu perdão. Implorou pra ficar. Justificou que não soubera como agir, que sentira medo dos meus ciúmes, da minha represália e que por isso tinha mentido. Jurou amor. Jurou que isso não se repetiria e todo tipo de balela que é comum em situações como essa.

Não consenti - claro. Coloquei numa sacola algumas roupas dela que ficavam em casa e mandei-a embora.

(Semanas depois recebi-a de volta. Mas isso é outra história.)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Previsão

As pessoas, de modo geral, têm dois tipos de reação diante do medo. Uma delas é a fuga, a negação. Virar as costas, distanciar-se, fingir que não existe aquilo de que se tem medo. A outra é ir de encontro ao que causa o medo.

Quando eu tinha 19 anos acabei me envolvendo com um casal que queria me usar para reavivar a relação moribunda na qual eles tinham se afundado. A coisa toda consistia basicamente em tornar-me um terceiro elemento. Um personagem novo naquele teatro enfadonho tantas vezes representado pelos dois.
Pra mim estava tudo ok! Eu era moleque, sedento de curiosidade pela vida e louco por uma aventura, tivesse ela a natureza que fosse. Minha filosofia era (e ainda é, embora de forma bem menos inconsequente) colecionar histórias de vida.
Além disso, eu tinha em mente a perspectiva de que muito em breve minhas possibilidades de acumular esse tipo de história iria extinguir-se. Ou pelo menos restringir-se drasticamente. Eu tinha uma noiva.

Vivíamos em cidades diferentes (e distantes) e por isso tínhamos combinado manter uma relação aberta, liberal e nada careta. Mas é claro que, uma vez realizado o casamento e dissipado-se a distância física, o trato rezava que viveríamos uma relação conjugal padrão, moral, careta e burguesa como manda o figurino. E eu estava plenamente feliz, seguro e de acordo com o trato.

Porém numa noite, durante um brunch amistoso com o casal enfadado, o marido sentiu-se compelido a justificar suas inclinações fetichistas (os homens de modo geral estão sempre tentando justificar suas inclinações).
Ele explicou que depois de um tempo de vida, depois de um tempo de casado, depois de um tempo fazendo sempre aquelas mesmas coisas, acaba sendo necessário mudar o tempero da comida, acrescentar uma pimenta, um novo matiz, uma nuance qualquer. Ele explicou que, depois de um tempo, mesmo esse novo matiz se desbota e então acaba sendo necessário acrescentar-se outro. E mais outro. E mais outro até que acaba-se mudando totalmente a receita inicial e criando-se uma nova forma de ver e fazer as coisas. E acrescentou que isso acontecia com todo mundo e que acabaria certamente acontecendo comigo um dia.

Fiquei estarrecido.

Imediatamente me vi mais velho, casado com minha noiva amada e sentindo-me compelido a dividi-la com outro. Pra apimentar a relação. A idéia - embora desagradável - parecia perfeitamente passível de concretização dado o fato de que então eu já vivia um relacionamento aberto, o que - no meu entender - me deixava a um passo de estar na situação daqueles dois.
Fui tomado por um terror, por uma raiva, por um nojo absurdo que fez com que eu nunca mais procurasse aquele casal e jurasse pra mim mesmo que jamais me permitiria chegar ao nível deprimente daqueles dois.

A noiva se foi sem nunca ter se tornado esposa, morei três anos com outra guria, depois namorei mais dois com uma outra e o medo continuava ali: imortal, impávido e absoluto com só os medos podem ser.

Um dia acordei e - lavando o rosto - me dei conta de que não havia mais medo. Ele tinha se dissipado completamente em algum momento e só então eu me dava conta disso. Eu tinha parado de fugir. Tinha me cansado de correr. Tinha desistido de tentar evitar.
O medo deixou de ser o vilão e tornou-se aliado. Tinha se amalgamado ao meu espírito. Tinha mudado minha índole.
Um dia acordei e ao lavar o rosto percebi que o casal era eu. E que aquele cara (maldito!) tinha acertado na previsão.

domingo, 10 de julho de 2011

À Deriva

Quando você é jovem, em algum momento passa por essa experiência. Uma descoberta tão traumática quanto reveladora que te afeta pelo resto da vida. Que te expõe pela primeira vez à noção de que o mundo é duro, cru e frio. Mas também mostra a verdade das coisas e te faz sentir um pouco mais ligado a realidade (por mais dura que ela seja, ainda assim é a realidade e sou inclinado a crer que isso é bem melhor que o embotamento juvenil).
Eu tinha de 18 pra 19 anos quando passei por isso. Quando de repente a verdade me deu um golpe certeiro e pela primeira vez percebi que meu pais não eram infalíveis, não eram indefectíveis, não eram um poço de equilíbrio. Que eles não eram super-heróis.
E isso nunca é fácil. Nunca é simples de aceitar. Nunca é leve.
Antes de conseguir assimilar a descoberta a pessoa passa por um período triste. Desolador. Em que se sente sozinho, à deriva, solto no mundo à merce do caos.
Tudo toma um tom estranho, inóspito, assustador e confuso.
É o primeiro sinal de que a adolescência está chegando ao fim.

Agora, depois de 10 anos, coisa parecida torna a acontecer.
De repente me caiu na cara o quanto eu sou falho. Revendo acontecimentos do passado, relendo e-mails antigos de ex-esposas, ex-namoradas, ex-amigos, passando tudo a limpo, analisando todas as coisas com a frieza e imparcialidade com que olho meu passado, começo a me dar conta de todos os erros estúpidos que cometi. De todas as coisas que poderiam ter sido feitas um pouco diferentes se eu fosse um pouco menos egoísta, um pouco menos introspectivo, um pouco menos ingênuo, um pouco menos infantil, um pouco menos metido a besta, um pouco menos babaca.
De repente eu olho e me dou conta do mal que provoquei aos outros, percebo o quanto fui amado por mulheres a quem usei, o quanto projetei nelas expectativas minhas que eram impossíveis de ser correspondidas e então as substituía, as humilhava, as reduzia.
Quanta cagada foi feita só pra saciar meus próprios caprichos pueris, meu romantismo acuador, minha ilusão do que era o ideal. E muitas vezes o ideal era só meu.
De repente eu percebo que se fui traído, se me esconderam coisas, se mentiram era por culpa minha. Porque eu era intransigente, tolo, superficial e interesseiro. Por que eu era violento, invasivo, ditador e frio.
Porque eu era mentiroso. Fraco. Falso. Desapegado de qualquer coisa que não transladasse em torno do meu umbigo.

De repente tudo veio.
E quando você descobre o tamanho do crápula que é, a intensidade do egoísmo e vilania que sempre permeou suas ações sem que você se desse conta, quanta merda foi feita enquanto pensava que estava sendo educado, fino, belo e benquisto... quando você se dá conta disso, de repente percebe que não se conhece mais, de repente lhe falta o chão. É como se o capitão da sua vida tivesse abandonado o barco. Mas todo o resto da tripulação tivesse sido deixada pra trás.

terça-feira, 28 de junho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Primeiro Amor

Eu me encontro numa situação muito peculiar.
Não tenho palavras. Primeira vez na vida não sei como descrever esta paixão, não tenho adjetivos pra catalogar essa relação, não tenho dados pra mensurar esse amor.

Talvez porque ele esteja acima disso. Talvez porque ele seja imperscrutável, indefinível, imensurável. Talvez porque ele seja tão pleno que eu sozinho não alcance. Talvez porque ele seja maior que eu.

Ou então talvez porque esta seja - em detrimento de tudo em que eu cria - a primeira vez que realmente saiba o que é amor.

Exatamente como você.

Então, naquele dia eu estava indo pro trabalho, absorto em pensamentos, deixando a cabeça vagar por idéias aleatórias como costumo fazer.
Não lembro como acabei chegando naquele assunto. Não lembro como acabei indo visitar aquelas lembranças específicas que estavam (eu pensava) encerradas no baú das coisas bem resolvidas (afinal, todo o dinheiro gasto com a análise tinha sido pra isso mesmo)!

Mas as lembranças vieram à tona. Elas retornaram e de repente percebi. De repente algo clareou-se, algo fez sentido - muito sentido - e era melhor que não tivesse feito.

Eu pensei em você. No amigo que você era. Nas cervejas que tomamos juntos, nos segredos que te contei, nas bandas que você me apresentou, nos banhos que te dei quando você teve fratura exposta no joelho, nos filmes que assistimos e nas coisas que você me contava sobre as mulheres que tinha levado pra cama.
Eu pensei nas idéias que você explanava, no modo como você gesticulava, na sobriedade do seu tom de voz, no seu olhar desconfiado.

Eu te redesenhei na minha cabeça e lembrei de quem você era. E comecei a chorar. Copiosamente. Pela primeira vez desde que eu era criança. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu.

Foi só então que eu percebi que o trauma tinha sido realmente grande. Que eu assumi que o trauma tinha sido realmente grande.
E só fui capaz de perceber isso porque, quando as coisas se clarearam em meio ao devaneio das minhas idéia, eu descobri que tinha me tornado você. Que desde então eu vinha te emulando. Repetindo seu jeito, seus gestos, seu modo de pensar o mundo. Sua desconfiança e falta de moral. Seu ímpeto predatório. Seu ímpeto auto destrutivo.
Eu estava te imitando sem perceber. Copiando sua personalidade. Copiando os erros que cometeu.

Eu chorei. Não pela sua traição. Nem porque seu pau me roubou o lar, me destruiu a família e a vida que eu tinha levado tanto tempo e dinheiro pra erigir. Mas porque você levou o que eu tinha de mais valioso.
Você levou o que eu era. Matou tudo o que eu gostava em mim. Me rebaixou ao seu nível, me transformou em tudo de pequeno, vil, mesquinho, feio e sujo que havia em você.

Eu chorei por ter sido fraco de deixar que isso acontecesse. Por permitir que você me afetasse tanto. Por ainda estar pensando nisso depois de tantos anos. Por ter sido bobo. Por ter confiado. Por ter amado. Por não ter tido a malícia.

Então tudo cessou. E enxuguei as lágrimas, disfarçando (porque eu estava em público), recoloquei a máscara com a sua cara e segui em frente. Sorrindo. Cínico.

Exatamente como você.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Amor

O que nas outras causava medo, nela causa admiração.
O que pras outras era defeito, pra ela é charme.
O que fazia com que as outras se afastassem, pra ela agrega mistério.
O que pras outras era excessivo, pra ela é fetiche.
O que pras outras era claustrofóbico, pra ela é libertação.

E pela primeira vez não é preciso fazer teatro, não é preciso ser comedido, não é necessário contenção. Pela primeira vez os ímpetos podem vir a tona, as palavras podem ser ditas e os nomes podem ser dados.
Pela primeira vez as feras podem ser soltas.

Pela primeira vez não é preciso mentir.
A alma está leve, as coisas estão em seus lugares e os ímpetos satisfeitos.

Não há nada nela que eu queira mudar. Ela está satisfeita com o que tem.
E eu acho que isso é a resposta pra aquilo a que chamam de "amor".

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Lágrimas e Maquiagem

Ela apaga nomes da minha agenda no celular, entra nas minhas contas de redes sociais, fuça meu computador, minhas conversas salvas e descobre coisas do meu passado que eu esqueci ou deliberadamente deixei de contar.
Ela fica brava quando eu demoro um pouco mais pra chegar em casa mas não fala nada. Finge que está tudo bem, tenta conter as caraminholas que lhe povoam a cabeça, guarda suas perguntas todas pra si pra não ferir o orgulho, pra não macular o amor próprio.
Então ela me agride, critica, me nega atenção, evoca histórias de seu passado, menciona nomes que ela sabe que atiçam meus ciúmes.
Ela me esnoba, desobedece, dá trabalho, age como criança, me ignora, espalha as roupas pela casa, me deixa sozinho nas festas, expõe segredos que eu não gostaria que fossem ditos.
Ela bebe, passa do ponto, torna-se agressiva, cínica, impertinente, insistente, excessiva, barulhenta e provocativa.

Na manhã seguinte ela me abraça apertado pra fazer eu esquecer a raiva, deita a cabeça no meu peito manchando minha camiseta com lágrimas e maquiagem e - com a voz mais doce do mundo - pede desculpas baixinho. Diz que foi tudo por ciúmes. Me faz prometer que nunca vou me dar pra ninguém além dela. Me dá um beijo doce no pescoço e me jura amor ao pé do ouvido.