Quando você é jovem, em algum momento passa por essa experiência. Uma descoberta tão traumática quanto reveladora que te afeta pelo resto da vida. Que te expõe pela primeira vez à noção de que o mundo é duro, cru e frio. Mas também mostra a verdade das coisas e te faz sentir um pouco mais ligado a realidade (por mais dura que ela seja, ainda assim é a realidade e sou inclinado a crer que isso é bem melhor que o embotamento juvenil).
Eu tinha de 18 pra 19 anos quando passei por isso. Quando de repente a verdade me deu um golpe certeiro e pela primeira vez percebi que meu pais não eram infalíveis, não eram indefectíveis, não eram um poço de equilíbrio. Que eles não eram super-heróis.
E isso nunca é fácil. Nunca é simples de aceitar. Nunca é leve.
Antes de conseguir assimilar a descoberta a pessoa passa por um período triste. Desolador. Em que se sente sozinho, à deriva, solto no mundo à merce do caos.
Tudo toma um tom estranho, inóspito, assustador e confuso.
É o primeiro sinal de que a adolescência está chegando ao fim.
Agora, depois de 10 anos, coisa parecida torna a acontecer.
De repente me caiu na cara o quanto eu sou falho. Revendo acontecimentos do passado, relendo e-mails antigos de ex-esposas, ex-namoradas, ex-amigos, passando tudo a limpo, analisando todas as coisas com a frieza e imparcialidade com que olho meu passado, começo a me dar conta de todos os erros estúpidos que cometi. De todas as coisas que poderiam ter sido feitas um pouco diferentes se eu fosse um pouco menos egoísta, um pouco menos introspectivo, um pouco menos ingênuo, um pouco menos infantil, um pouco menos metido a besta, um pouco menos babaca.
De repente eu olho e me dou conta do mal que provoquei aos outros, percebo o quanto fui amado por mulheres a quem usei, o quanto projetei nelas expectativas minhas que eram impossíveis de ser correspondidas e então as substituía, as humilhava, as reduzia.
Quanta cagada foi feita só pra saciar meus próprios caprichos pueris, meu romantismo acuador, minha ilusão do que era o ideal. E muitas vezes o ideal era só meu.
De repente eu percebo que se fui traído, se me esconderam coisas, se mentiram era por culpa minha. Porque eu era intransigente, tolo, superficial e interesseiro. Por que eu era violento, invasivo, ditador e frio.
Porque eu era mentiroso. Fraco. Falso. Desapegado de qualquer coisa que não transladasse em torno do meu umbigo.
De repente tudo veio.
E quando você descobre o tamanho do crápula que é, a intensidade do egoísmo e vilania que sempre permeou suas ações sem que você se desse conta, quanta merda foi feita enquanto pensava que estava sendo educado, fino, belo e benquisto... quando você se dá conta disso, de repente percebe que não se conhece mais, de repente lhe falta o chão. É como se o capitão da sua vida tivesse abandonado o barco. Mas todo o resto da tripulação tivesse sido deixada pra trás.
domingo, 10 de julho de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Primeiro Amor
Eu me encontro numa situação muito peculiar.
Não tenho palavras. Primeira vez na vida não sei como descrever esta paixão, não tenho adjetivos pra catalogar essa relação, não tenho dados pra mensurar esse amor.
Talvez porque ele esteja acima disso. Talvez porque ele seja imperscrutável, indefinível, imensurável. Talvez porque ele seja tão pleno que eu sozinho não alcance. Talvez porque ele seja maior que eu.
Ou então talvez porque esta seja - em detrimento de tudo em que eu cria - a primeira vez que realmente saiba o que é amor.
Não tenho palavras. Primeira vez na vida não sei como descrever esta paixão, não tenho adjetivos pra catalogar essa relação, não tenho dados pra mensurar esse amor.
Talvez porque ele esteja acima disso. Talvez porque ele seja imperscrutável, indefinível, imensurável. Talvez porque ele seja tão pleno que eu sozinho não alcance. Talvez porque ele seja maior que eu.
Ou então talvez porque esta seja - em detrimento de tudo em que eu cria - a primeira vez que realmente saiba o que é amor.
Exatamente como você.
Então, naquele dia eu estava indo pro trabalho, absorto em pensamentos, deixando a cabeça vagar por idéias aleatórias como costumo fazer.
Não lembro como acabei chegando naquele assunto. Não lembro como acabei indo visitar aquelas lembranças específicas que estavam (eu pensava) encerradas no baú das coisas bem resolvidas (afinal, todo o dinheiro gasto com a análise tinha sido pra isso mesmo)!
Mas as lembranças vieram à tona. Elas retornaram e de repente percebi. De repente algo clareou-se, algo fez sentido - muito sentido - e era melhor que não tivesse feito.
Eu pensei em você. No amigo que você era. Nas cervejas que tomamos juntos, nos segredos que te contei, nas bandas que você me apresentou, nos banhos que te dei quando você teve fratura exposta no joelho, nos filmes que assistimos e nas coisas que você me contava sobre as mulheres que tinha levado pra cama.
Eu pensei nas idéias que você explanava, no modo como você gesticulava, na sobriedade do seu tom de voz, no seu olhar desconfiado.
Eu te redesenhei na minha cabeça e lembrei de quem você era. E comecei a chorar. Copiosamente. Pela primeira vez desde que eu era criança. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu.
Foi só então que eu percebi que o trauma tinha sido realmente grande. Que eu assumi que o trauma tinha sido realmente grande.
E só fui capaz de perceber isso porque, quando as coisas se clarearam em meio ao devaneio das minhas idéia, eu descobri que tinha me tornado você. Que desde então eu vinha te emulando. Repetindo seu jeito, seus gestos, seu modo de pensar o mundo. Sua desconfiança e falta de moral. Seu ímpeto predatório. Seu ímpeto auto destrutivo.
Eu estava te imitando sem perceber. Copiando sua personalidade. Copiando os erros que cometeu.
Eu chorei. Não pela sua traição. Nem porque seu pau me roubou o lar, me destruiu a família e a vida que eu tinha levado tanto tempo e dinheiro pra erigir. Mas porque você levou o que eu tinha de mais valioso.
Você levou o que eu era. Matou tudo o que eu gostava em mim. Me rebaixou ao seu nível, me transformou em tudo de pequeno, vil, mesquinho, feio e sujo que havia em você.
Eu chorei por ter sido fraco de deixar que isso acontecesse. Por permitir que você me afetasse tanto. Por ainda estar pensando nisso depois de tantos anos. Por ter sido bobo. Por ter confiado. Por ter amado. Por não ter tido a malícia.
Então tudo cessou. E enxuguei as lágrimas, disfarçando (porque eu estava em público), recoloquei a máscara com a sua cara e segui em frente. Sorrindo. Cínico.
Exatamente como você.
Não lembro como acabei chegando naquele assunto. Não lembro como acabei indo visitar aquelas lembranças específicas que estavam (eu pensava) encerradas no baú das coisas bem resolvidas (afinal, todo o dinheiro gasto com a análise tinha sido pra isso mesmo)!
Mas as lembranças vieram à tona. Elas retornaram e de repente percebi. De repente algo clareou-se, algo fez sentido - muito sentido - e era melhor que não tivesse feito.
Eu pensei em você. No amigo que você era. Nas cervejas que tomamos juntos, nos segredos que te contei, nas bandas que você me apresentou, nos banhos que te dei quando você teve fratura exposta no joelho, nos filmes que assistimos e nas coisas que você me contava sobre as mulheres que tinha levado pra cama.
Eu pensei nas idéias que você explanava, no modo como você gesticulava, na sobriedade do seu tom de voz, no seu olhar desconfiado.
Eu te redesenhei na minha cabeça e lembrei de quem você era. E comecei a chorar. Copiosamente. Pela primeira vez desde que eu era criança. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu.
Foi só então que eu percebi que o trauma tinha sido realmente grande. Que eu assumi que o trauma tinha sido realmente grande.
E só fui capaz de perceber isso porque, quando as coisas se clarearam em meio ao devaneio das minhas idéia, eu descobri que tinha me tornado você. Que desde então eu vinha te emulando. Repetindo seu jeito, seus gestos, seu modo de pensar o mundo. Sua desconfiança e falta de moral. Seu ímpeto predatório. Seu ímpeto auto destrutivo.
Eu estava te imitando sem perceber. Copiando sua personalidade. Copiando os erros que cometeu.
Eu chorei. Não pela sua traição. Nem porque seu pau me roubou o lar, me destruiu a família e a vida que eu tinha levado tanto tempo e dinheiro pra erigir. Mas porque você levou o que eu tinha de mais valioso.
Você levou o que eu era. Matou tudo o que eu gostava em mim. Me rebaixou ao seu nível, me transformou em tudo de pequeno, vil, mesquinho, feio e sujo que havia em você.
Eu chorei por ter sido fraco de deixar que isso acontecesse. Por permitir que você me afetasse tanto. Por ainda estar pensando nisso depois de tantos anos. Por ter sido bobo. Por ter confiado. Por ter amado. Por não ter tido a malícia.
Então tudo cessou. E enxuguei as lágrimas, disfarçando (porque eu estava em público), recoloquei a máscara com a sua cara e segui em frente. Sorrindo. Cínico.
Exatamente como você.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Amor
O que nas outras causava medo, nela causa admiração.
O que pras outras era defeito, pra ela é charme.
O que fazia com que as outras se afastassem, pra ela agrega mistério.
O que pras outras era excessivo, pra ela é fetiche.
O que pras outras era claustrofóbico, pra ela é libertação.
E pela primeira vez não é preciso fazer teatro, não é preciso ser comedido, não é necessário contenção. Pela primeira vez os ímpetos podem vir a tona, as palavras podem ser ditas e os nomes podem ser dados.
Pela primeira vez as feras podem ser soltas.
Pela primeira vez não é preciso mentir.
A alma está leve, as coisas estão em seus lugares e os ímpetos satisfeitos.
Não há nada nela que eu queira mudar. Ela está satisfeita com o que tem.
E eu acho que isso é a resposta pra aquilo a que chamam de "amor".
O que pras outras era defeito, pra ela é charme.
O que fazia com que as outras se afastassem, pra ela agrega mistério.
O que pras outras era excessivo, pra ela é fetiche.
O que pras outras era claustrofóbico, pra ela é libertação.
E pela primeira vez não é preciso fazer teatro, não é preciso ser comedido, não é necessário contenção. Pela primeira vez os ímpetos podem vir a tona, as palavras podem ser ditas e os nomes podem ser dados.
Pela primeira vez as feras podem ser soltas.
Pela primeira vez não é preciso mentir.
A alma está leve, as coisas estão em seus lugares e os ímpetos satisfeitos.
Não há nada nela que eu queira mudar. Ela está satisfeita com o que tem.
E eu acho que isso é a resposta pra aquilo a que chamam de "amor".
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Lágrimas e Maquiagem
Ela apaga nomes da minha agenda no celular, entra nas minhas contas de redes sociais, fuça meu computador, minhas conversas salvas e descobre coisas do meu passado que eu esqueci ou deliberadamente deixei de contar.
Ela fica brava quando eu demoro um pouco mais pra chegar em casa mas não fala nada. Finge que está tudo bem, tenta conter as caraminholas que lhe povoam a cabeça, guarda suas perguntas todas pra si pra não ferir o orgulho, pra não macular o amor próprio.
Então ela me agride, critica, me nega atenção, evoca histórias de seu passado, menciona nomes que ela sabe que atiçam meus ciúmes.
Ela me esnoba, desobedece, dá trabalho, age como criança, me ignora, espalha as roupas pela casa, me deixa sozinho nas festas, expõe segredos que eu não gostaria que fossem ditos.
Ela bebe, passa do ponto, torna-se agressiva, cínica, impertinente, insistente, excessiva, barulhenta e provocativa.
Na manhã seguinte ela me abraça apertado pra fazer eu esquecer a raiva, deita a cabeça no meu peito manchando minha camiseta com lágrimas e maquiagem e - com a voz mais doce do mundo - pede desculpas baixinho. Diz que foi tudo por ciúmes. Me faz prometer que nunca vou me dar pra ninguém além dela. Me dá um beijo doce no pescoço e me jura amor ao pé do ouvido.
Ela fica brava quando eu demoro um pouco mais pra chegar em casa mas não fala nada. Finge que está tudo bem, tenta conter as caraminholas que lhe povoam a cabeça, guarda suas perguntas todas pra si pra não ferir o orgulho, pra não macular o amor próprio.
Então ela me agride, critica, me nega atenção, evoca histórias de seu passado, menciona nomes que ela sabe que atiçam meus ciúmes.
Ela me esnoba, desobedece, dá trabalho, age como criança, me ignora, espalha as roupas pela casa, me deixa sozinho nas festas, expõe segredos que eu não gostaria que fossem ditos.
Ela bebe, passa do ponto, torna-se agressiva, cínica, impertinente, insistente, excessiva, barulhenta e provocativa.
Na manhã seguinte ela me abraça apertado pra fazer eu esquecer a raiva, deita a cabeça no meu peito manchando minha camiseta com lágrimas e maquiagem e - com a voz mais doce do mundo - pede desculpas baixinho. Diz que foi tudo por ciúmes. Me faz prometer que nunca vou me dar pra ninguém além dela. Me dá um beijo doce no pescoço e me jura amor ao pé do ouvido.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Carpenters
Quando eu olhei pros seus olhos cheios de lágrimas, pensei em como seria desastroso nunca mais ter esses olhos para olhar. Eu vi sua boca recolhida pelo choro, seus ombros encolhidos em desalento e pensei no desalento que seria a minha vida se você não tivesse voltado. Eu pensei na eternidade daqueles dois minutos e meio entre o momento em que você saiu magoada batendo a porta e o momento em que voltou furiosa querendo me cobrar satisfações.
E eu queria te amarrar, te prender em mim, te atar ao meu sofá pra que você nunca pudesse ter a chance de me deixar. Eu queria suprimir completamente sua autonomia pra que você não tivesse qualquer outra escolha na vida senão me amar, independente do que acontecesse.
Eu queria ser dono dos seus dias, queria ser senhor do seu tempo, soberano do seu destino. Pra que não houvesse fato que eu não pudesse saber, intervir, interferir ou manipular.
Quando você me abraçou sedenta de cuidados, quando envolveu meu pescoço com seus braços eu pensei na solidão que seria a minha carne sem a sua. Eu pensei que a minha boca perderia todas as palavras se eu não tivesse mais os seus ouvidos. Que a minha garganta secaria se eu não tivesse mais seus beijos.
E eu quis que você não fosse tão passional quanto eu. Quis que você pudesse ser mansa. Mas lembrei que o que me fez te amar em primeiro lugar foi justamente o fato de você não conseguir ser mansa. E entendi que o nosso fogo, nossa cólera comum é nossa bênção e nossa derrocada.
Eu quis sair. Quis te levar pra algum lugar bem longe e você quis ir pra um bar. E nós bebemos e conversamos e nos beijamos e dançamos Carpenters como se eu nunca tivesse estado tão perto de nos perder.
E eu queria te amarrar, te prender em mim, te atar ao meu sofá pra que você nunca pudesse ter a chance de me deixar. Eu queria suprimir completamente sua autonomia pra que você não tivesse qualquer outra escolha na vida senão me amar, independente do que acontecesse.
Eu queria ser dono dos seus dias, queria ser senhor do seu tempo, soberano do seu destino. Pra que não houvesse fato que eu não pudesse saber, intervir, interferir ou manipular.
Quando você me abraçou sedenta de cuidados, quando envolveu meu pescoço com seus braços eu pensei na solidão que seria a minha carne sem a sua. Eu pensei que a minha boca perderia todas as palavras se eu não tivesse mais os seus ouvidos. Que a minha garganta secaria se eu não tivesse mais seus beijos.
E eu quis que você não fosse tão passional quanto eu. Quis que você pudesse ser mansa. Mas lembrei que o que me fez te amar em primeiro lugar foi justamente o fato de você não conseguir ser mansa. E entendi que o nosso fogo, nossa cólera comum é nossa bênção e nossa derrocada.
Eu quis sair. Quis te levar pra algum lugar bem longe e você quis ir pra um bar. E nós bebemos e conversamos e nos beijamos e dançamos Carpenters como se eu nunca tivesse estado tão perto de nos perder.
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