domingo, 29 de setembro de 2013

Simples assim

“Então é isso?” Ela disse: “Depois de tudo, depois de ter dito que me amava, depois de mandar sms bêbado, no meio da madrugada, é assim que vai terminar? Você diz que não quer me ver nunca mais e acabou? Simples assim?”

Não era – em absoluto – simples assim. Não era uma decisão tão fácil de se tomar nem uma ação tão fácil de se executar. Também não tinha sido, a despeito do que pudesse parecer, uma decisão tomada de última hora. Era uma decisão pensada, ponderada, avaliada e até adiada. Adiada uma centena de vezes.
Mesmo que se ame alguém, mesmo que se goste e se queira a presença dessa pessoa, mesmo tendo no histórico uma série de situações e de lembranças deliciosas, de acontecimentos únicos e sensações inesquecíveis, mesmo nesse caso, às vezes, convém parar e refletir se aquilo que está sendo construído, se a relação que está sendo desenvolvida é realmente boa.
Às vezes não é.
Às vezes tudo é tão errado, tão cheio de vícios, tão mal arranjado que não haja qualquer possibilidade de funcionar. Que o tempo, que a insistência na manutenção, que a persistência na continuidade só causem um desastre ainda maior e o dano seja irreparável.
Às vezes, por mais que o coração queira e a alma anseie, o melhor talvez seja cortar os laços. Simplesmente desistir.

Não era fácil. Por dentro eu sentia o ímpeto de abraça-la, de toma-la no peito, enxugar suas lágrimas, beijar sua boca e repetir que a amava, que a queria agora e sempre, que tínhamos de ficar juntos, que tudo ficaria bem, que eu cuidaria dela, que eu sabia exatamente qual era o caminho que tínhamos de tomar pra estar juntos, tendo superado as intempéries. Que era possível somar forças pra que seus medos, aos poucos, fossem superados, pra que suas desconfianças fossem esquecidas, pra que tudo tivesse um final feliz. Mas era mentira.
Eu tinha feito o que sabia, tinha tentado o que me cabia, o que considerava ser da minha alçada, da minha parcela de responsabilidade, e não tinha funcionado.
Minha experiência, meu auto controle, minha sinceridade, minha honestidade, nada tinha surtido efeito.
O que ela queria – no fundo -  era que eu fosse capaz de corresponder exatamente, e minuciosamente, às expectativas que tinha criado dentro de si, e isso era impossível.
De fato, em vez de ser capaz de conter suas inseguranças, suas neuroses, eu é que comecei a ser afetado e desestabilizado por elas. Por mais que a amasse (e amava), naquele momento parecia ser imprescindível amar mais a mim mesmo. E me poupar.

Por dentro eu sentia o peito se despedaçando e a alma se contorcendo em tristeza, solidão e remorso. Por dentro eu queria ser aventureiro e apostar nela meu resto de sanidade.
Mas não era tão simples assim.

Por fora, eu olhei friamente em seus olhos marejados e terminei tudo, dizendo com desdém: “É... É simples assim.”

Um comentário:

Juliana Rainato disse...

Você escreve muito bem, pega lá dentro mesmo da pessoa.